Reciclagem de produtos eletroeletrônicos

A problemática da reciclagem de produtos eletroeletrônicos órfãos.

A problemática criada em torno da destinação e reciclagem de produtos órfãos (como são chamados os itens importados que não tem um fabricante responsável no País ou entram de forma ilegal) pelas fabricantes nacionais de eletroeletrônicos pode ser resolvida por intermediação do governo, que levanta a possibilidade das empresas brasileiras não precisarem se responsabilizar pela reciclagem das peças.

Segundo o diretor socioambiental da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), André Saraiva, as companhias nacionais poderiam arcar 100% com a logística reversa e a reciclagem dos órfãos. Entretanto, de acordo com o edital de chamamento para Propostas de Acordo Setorial para Implantação do Sistema de Logística Reversa de Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos no Brasil, lançado no início do ano pelo Ministério do Meio Ambiente, as fabricantes nacionais são responsáveis, nos primeiros cinco anos do projeto, pela reciclagem de 17% do volume comercializado por elas, o que permite o não envolvimento das empresas no processo de tratamento dos produtos considerados órfãos.

“Não temos mais obrigação de cuidar de produtos que foram fabricados por estrangeiras. Tenho que fazer minha parte reciclando 17% do volume que comercializo”, afirma Saraiva.

Para o consultor ambiental e diretor do Pinheiro Pedro Advogados, Fernando Pinheiro Pedro, as brasileiras, entretanto são responsáveis pela reciclagem dos resíduos órfãos.

“Essas companhias devem se responsabilizar pela recuperação desses itens levando em consideração a afinidade de seus produtos com esses materiais produzidos por empresas estrangeiras sem sede no Brasil”, explica Pinheiro Pedro.

Em 2011, a Abinee começou a trabalhar em cima de um estudo que levou a criação da Logística Reversa dos Resíduos de Equipamentos Eletroeletrônicos (REEE). O documento aponta sete desafios a serem superados pelo setor para a implantação do projeto ambiental. Entre eles está a responsabilidade e a forma de custeio dos produtos órfãos.

Com base em dados reunidos no documento, a linha verde (celulares, impressoras, notebooks, etc.) é a mais afetada pela entrada desses itens no mercado informal brasileiro. Os dados retirados do Relatório GIA, elaborado pela Global Intelligence Alliance, apontam uma penetração de 2% desses produtos no segmento de impressoras, 20% em celular, 25% em notebook e 33% em desktop.

Em relação à linha branca (geladeiras, fogões, etc.), esses números são menos expressivos. Apenas o ar condicionado sofre com 0,5% de penetração de produtos órfãos, enquanto os demais itens somam 0%.

Para Pinheiro Pedro, as peças importadas ou pirateadas deixam de ser órfãs a partir do momento que entram no varejo nacional. “Após ser consumido, ele não tem mais orfandade. Na verdade, o produto já passou por uma cadeia de consumo e precisa ser absorvido pelo setor. Então essa orfandade não existe”, enfatiza o consultor.

O segmento nacional de eletroeletrônicos emprega, atualmente, mais de 180 mil trabalhadores diretos e responde por mais de 15% da produção industrial no País. Além disso, de acordo com dados divulgados pela Abinee, o faturamento anual do setor representa 3,3% do Produto Interno Bruto (PIB) total do Brasil.

Oportunidades

Por isso, o interesse de novos empresários no setor de reciclagem não surpreende, devido à possibilidade de crescimento apresentada nessa área. É o caso da Sinctronics, empresa nacional de reciclagem de eletroeletrônicos, que já opera dentro da Flextronics – sua empresa mãe.

A companhia está construindo um Centro de Reciclagem e um Centro de Inovação em Tecnologia Sustentável na cidade de Sorocaba (SP) e já prevê a contratação de 80 funcionários.

“A Sinctronics nasceu de uma necessidade de atender à demanda de descarte, coleta e reciclagem de eletroeletrônicos em âmbito nacional seguindo os requisitos ambientais estipulados pelo governo”, explica o diretor geral da companhia, Carlos Ohde.

A unidade fabril deve ficar pronta ainda nesse ano e terá capacidade para processar até 300 toneladas por mês de eletroeletrônicos. Segundo Ohde, 90% do material será reciclado e os 10% restante serão enviados para coprocessamento. O executivo também afirma que a empresa terá capacidade para trabalhar com produtos órfãos.
A Vertes, empresa nacional situada em Mauá (SP) e fundada em 2009, já colhe os frutos do seu trabalho. Com uma carteira de 280 clientes, incluindo gigantes do ramo de bebidas e alimentos, também não vê problemas em trabalhar com os órfãos.
Com um faturamento de R$ 1,8 milhão em 2012, a empresa almeja um crescimento de 10% nesse ano e tem capacidade para produzir 60 toneladas por mês.

“Conseguimos reciclar 90% dos produtos que recebemos e não exportamos nada. Todos eles retornam para o mercado brasileiro”, conclui o diretor comercial da Vertas, José Cristovam.

Por: Bruna Kfouri
Fonte: DCI – Diário do Comércio, Indústria & Serviços

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